Vestir-se de si

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Há um episódio da minha vida, que embora soe cômico, é uma importante simbologia para o meu eu. Quando adolescente, enquanto esperava para entrar em um restaurante, não me reconheci no espelho e isso durou aproximadamente três minutos. Costumava usar o cabelo preso, e neste dia, estava solto. Mas hoje não compreendo que não me reconheci apenas por isso, mas por um processo que envolvia o saber quem sou, o estar comigo mesma e esse processo –, até que eu definitivamente compreendesse que precisava me ‘procurar’ na alma, levou tempo e não está totalmente finalizado.

A sociedade nos ensina, os meios culturais (falo aqui daqueles que me influenciaram diretamente) que precisamos estar ‘aptos’ para corresponder a algumas expectativas, a maioria implícita, trata-se de uma guerra invisível. Você precisa lutar por algo, alguém, por conquistas, sejam elas para você ou que te envolvam e em segundo plano, um coletivo se beneficie. Mas não faz parte do jogo, não está entre as ‘regras’ da guerra, que o sujeito tenha que lutar para ‘ser’ neste mundo. Há uma armadura, há vestes próprias para este tipo de guerra ‘habitual’ e poucos ousarão tirar essa armadura para ver aquilo que são ou aquilo que falta em ser. Consegue entender?

Aqueles que resolvem se despir dessa vestimenta ornamentada para essa guerra simbólica, que nem se percebe como guerra – apenas se a gente se despir por algum momento –, percebem que dói muito o nunca ter sido de fato, o sequer saber sobre quem é.

A essência, esse cálice único, que cabe a cada ser humano em especial no mundo, muitas vezes é como uma vestimenta de alma que precisa-se enxergar, reconhecer e depois se encorajar para vestir. Sabe por que coragem? Porque o uniforme de guerra habitual é seguir em concordância com regras e estar sincronizado em comportamentos e quando se decide usar a própria veste, não é só a pessoa que se vê de maneira diferente, mas o mundo ao redor e muitos não poderão compreender a razão dessa escolha. Você entende? É loucura não seguir uma fórmula que tem sido bem-sucedida desde que o mundo existe, é loucura querer ser do seu jeito próprio. E por que fazer essa escolha de vestir-se de si?

Porque essa é a razão pela qual existimos. Para saber sobre quem somos. Para que possamos evoluir. Crescer. E dependendo de quando tomamos essa decisão, essa escolha pode doer, pode dilacerar, pode quebrar a alma em minúsculos pedaços. Dói vestir-se de si por cima de uma essência que fora por tanto tempo mutilada. Mas depois que essa veste é colocada sobre a alma, o processo de cicatrização começa a acontecer. Como eu sei disso? Porque estou experimentando o processo de cicatrização ainda. O me vestir de quem sou é dizer a você sobre o meu processo e para que por meio dele, possa ter coragem para se buscar, para se retirar de si por algum momento e ver o que é necessário para que não morra absolutamente.

Muitos escolhem viver a vida do outro, os sonhos do outro, de acordo com as expectativas de uma sociedade sombria, e talvez essa escolha parta da comodidade de manter-se, sem dor, sem trabalho, sem luta – sem dor ao transformar-se, sem trabalho ao ir em busca por si mesmo em cada partícula obscura da alma, sem a luta de não desistir, mesmo quando o processo estiver sendo insuportável de tão doloroso e confrontador.

O vestir-se de si dói tanto! É uma luta muito pesada, mas que no final pode valer muito a pena. A minha função aqui é dizer que faço parte dessa luta, que estou aqui para que converse, para que se solte – literalmente – de todas as amarras que te impedem de florescer como humano. A gente ainda vai se encontrar por aí. Seja no Brasil, Espanha, Portugal, Estados Unidos… seja até em outra dimensão. Nos encontraremos queridos irmãos e irmãs, seres lutadores por ser.

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