Livros fazem mais do que contar histórias

Aos onze anos de idade já havia tido boas experiências com a leitura desde a infância. Adorava ler os gibis da Turma da Mônica, as histórias clássicas, com destaque para  O Rei Leão, e algumas obras das quais não me recordo mais, como uma coleção de quatro livros de fábulas, desses comprados na escola, em que animais na selva interagiam apresentando uma série de situações engraçadas da ‘rotina’ na floresta.

Na adolescência, lembro de ter lido um livro sobre uma família que vivia no Alasca e que encontrava uma série de dificuldades para vencer o frio e a fome, não me recordo do nome. O engraçado é que sempre tive boa memória e embora me recorde do contexto das histórias, do nome do livro em específico não lembro. Não acho que é porque as histórias não me marcaram, pelo contrário, senão eu sequer traria à memória, mas é que há algumas narrativas muito marcantes, tão marcantes que não se pode esquecer, como se ficassem fincadas na alma.

livro sabinoO primeiro livro, desses que me marcou na alma foi No fim dá certo – Se não deu, é porque não chegou ao fim, de Fernando Sabino. Aos onze anos esse livro foi uma companhia de três dias, gostaria que tivesse durado pelo menos mais dois, mas era tão intenso lê-lo que eu esquecia do tempo ao redor, esquecia dos meus dramas adolescentes e me identificava com algumas personagens que faziam parte daquele jeito tão único de Sabino de colocar em crônicas grandes doses de esperança, humor, e que humor! Gargalhava tanto com algumas histórias, relia, pensava e pensava. Quando terminei de ler e entreguei o livro na biblioteca da escola, vi a notícia de que Sabino havia falecido no Rio de Janeiro. E lembro de constatar – No fim deu certo mesmo! – pelo menos na minha alma era como se algo tivesse sido plantado, uma dose de esperança nascia.

Aos doze anos, o que me marcou foi um livro de poemas, desta vez era Thiago de Mello o autor da vez, ‘da vez’ dos meus desajustes sentimentais em o Poema Perto do Fim “A morte é indolor/O que dói nela é o nada que a vida faz do amor”.

Houve outras histórias como aquelas da infância, das quais me recordo do contexto, mas nomes de personagens e título do livro me fogem da memória. Como um livro, também lido na adolescência, indicado pela escola, que contava a história de várias personagens a partir de uma calça jeans que ‘entrava’ no contexto de vida de cada uma delas.

a hora da estrelaaE tive a honra de conhecer algumas personagens dessas tão marcantes que a gente acha que já conhecia de algum lugar, de algum canto na alma, ali, esperando para nos honrar com a existência. Dentre elas, Macabéa, brilhantemente narrada por Clarice Lispector em A Hora da Estrela, a nordestina, inocente, sedenta por conhecer novas palavras e significados e que às vezes irritava, de tão paciente e de tão passiva. Mas ao mesmo tempo era tão corajosa, porque dava a si e à própria vida um brio que a sociedade ao seu redor jamais daria, e se dava essa dignidade por ser tão sonhadora e de alma pura.

Também tive o prazer de conhecer Elinor e Marianne, em A razão e sensibilidade, de Jane Austen, suspirei por Mr. Darcy e reverenciei a força de Elizabeth Bennet em Orgulho e Preconceito.

Já me distraí muito com O Casamento de Nelson Rodrigues a ponto de não saber se fazia sol ou se escurecia para lá da janela fechada.

Já exercitei a minha passionalidade com João Cabral de Melo de Neto – “O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato”, me fazia tanto pensar!

E Cujo de Stephen King? Em que um cão São Bernardo tem o seu estado psicológico relatado pelo autor enquanto o vírus da raiva lhe toma cada partícula do grande corpo animal! E Cemitério Maldito? Em que a loucura toma a mente do médico Louis Creed, que incessantemente passa a crer na ressurreição de entes queridos, mesmo quando o próprio gato ao ser enterrado naquele cemitério retorna maligno, fétido e sem nenhum traço do que fora o doce Church.

Porque será, ora bolas, que de algumas histórias recordo tão bem e de algumas guardo na memória fagulhas de lembrança? Definitivamente não acredito que seja porque algumas histórias são mais importantes do que outras, não acredito que no universo das palavras exista acepção de histórias, acredito que algumas histórias marcam mais na vida e alguns personagens se tornam tão especiais porque aquela dose de ficção era exatamente o manancial que a alma tão sedenta ansiava naquele exato momento. Acontece como que um encontro memorável infalível. Em alguns casos, o autor é tão despretensioso como narrador, que os personagens ficam completamente nus diante de nossa própria nudez, e aí acontece um encontro particular entre almas – a alma do leitor com a alma do personagem -, como se ambos se tocassem por um breve e valioso momento, apenas porque um soube entrar na alma do outro. É possível entrar na alma de personagens também, não são apenas meros personagens, em alguns casos, são nossas representações em histórias literárias.

Vamos nos livrar da rasa compreensão de que livros ‘apenas’ contam histórias, porque na verdade, livros contam a nossa história, por meio de personagens que são tão reais a ponto que nos habitar cada partícula da alma em um momento ínfimo, como se leitor e personagem estivessem em um palco vazio e se olhassem, abraçassem, em alguns casos se confrontassem antes de um abraço e algum dia, mesmo que não se lembre assim com tanta riqueza de detalhes sobre o contexto ou sobre aquela personagem, alguma coisa dentro da nossa alma floresceu.

Livros contam a nossa vida envolta em uma ficção e beleza estética que nossos sentidos são incapazes de captar no dia a dia, mas se você parar para pensar, vai ver que a sua vida é como um livro e se parar para se olhar, vai ver que é um personagem peculiar encenando a si em um palco reluzente sob as estrelas no doce Universo.

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