‘Borderline’ – vulnerável homem nu

Foto: Vinicius Conrad

O monólogo Borderline, dirigido por Marcello Gonçalves, que estreou em São Paulo no espaço Parlapatões, na sexta-feira, 13, com texto de Junior Dalberto e produção da Cia. de Arte Nova, vale ser apreciado.

Rutras, personagem brilhantemente interpretado pelo ator potiguar Bruce Brandão, é um border que relata a sua trajetória envolta por sexualidade aflorada, bipolaridade, desejos desenfreados, esquizofrenia, boas doses de loucura e lucidez. Bem, essa é a parte técnica do texto.

Hoje foi um sábado agradável, desses em que ficar em casa o dia todo fazendo nada ou inventando coisas para fazer seria indiferente para um dia com uma aura de paz fora do comum. Uma ideia repentina – ver uma peça teatral -, e a partir da busca despretensiosa na internet, o nome de um transtorno chama a atenção.

Jogo de luzes, fumaça e surge um homem, desses que vivem da arte de interpretar personagens, talvez eles mesmos, e filantropicamente, os espectadores. Rutras, personagem com um quê de mitologia cibernética, homem nascido nos anos 1990, em meio à virtualidade e camuflado por ela desde nascido. Quem o veria? Seus pais? Sua irmã? Ele mesmo? Espectadores?

Um homem nu, desses que arrancam o couro da carcaça e mostram tudo o que têm, ora, esse plural não cabe aqui, porque pouquíssimos seres fazem o mesmo ao redor do mundo. E talvez não seja o personagem Rutras, mas uma espécie de devoção na alma de ator, que perpassa a atuação e personagem. Do que se trata esse monólogo? De sentir.

Não conseguia controlar sensações, lágrimas e em alguns momentos, vergonha, talvez porque essa nudez é tudo o que alguns humanos precisavam para se livrar de um tormento, de uma grande agonia. E se um homem, de ofício ator, e se um personagem, ofício do homem, se despem, por que não os mortais sem palco e sem o escudo da arte?

Ao final do espetáculo, já premiado, baseado no livro O Cangaço e o Carcará Sanguinolento, de Junior Dalberto, o homem que ali se despiu fala sobre o espetáculo, fala sobre a importância da divulgação, sobre o apoio para que continue sendo estrelado. E me coloco a pensar: a que ponto se chega quando é preciso que algo tão límpido que desperta os mais profundos sentidos na alma, precisa de brados para que seja ouvido! Tempos árduos!

Um homem atormentado por desejos, com uma memória infalível torturante, envolto em uma enxurrada de culpa, de lama, de drama, mergulhado em pecado e absolvido por um sofrimento fora de sua consciência. Tão louco, tão feliz a ponto de se despencar no abismo da tristeza. Tão envolto na virtualidade, incapaz de discernir os sentimentos mais crus em sua realidade. A morte é um desejo, ainda que viver seja o álibi de suas delícias. É história insana, não rende compreensão a olhos e ouvidos dispersos, é um negócio que acontece na alma, que desperta desde terrores a compaixão. É a arte, que muitos acreditam ser inútil, mas que ainda torna os dias tão espetaculares! Sábado com uma aura de paz fora do comum. Fora do comum…

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