Espaço Brincante – primeira biblioteca e brinquedoteca comunitária no bairro Parque da Cachoeira, Brumadinho – MG

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Centro cultural, idealizado por Waldenia M. F. Dias Viana e Margareth Brandini Park, é uma realidade que resgata da dor os sobreviventes da tragédia em Brumadinho

 

*Imagens do acervo pessoal de Waldenia M. F. Dias Viana

As brumas de Brumadinho – Margareth Brandini Park

As brumas que eram

rendadas

suaves

finas como teias

de aranhas bailarinas

se turvaram

espessaram

densas e escuras

como as asas

de mil corvos

em revoada.

O céu ganhou estrelas

foscas

que enganam os olhos

caçadores de luzes.

As brumas que teciam

xales para os ombros

de tímidas moças

se esgarçaram.

Seus fios se enroscaram

em árvores

que teimam em verdejar.

Mas há de surgir

com força

revoadas de crianças

aladas

que jogarão sementes

e flores.

Elas trarão de volta

em suas mãos

as brumas rendadas

suaves e finas

como as teias

das aranhas bailarinas.

A tragédia (crime ambiental) em Brumadinho, ocorrida 25 de janeiro, segundo último registro da Defesa Civil de Minas Gerais (confira), do dia 6 de abril, mostrou que 365 vítimas foram localizadas, 69 pessoas permanecem desaparecidas e já foram registrados 224 óbitos.

O que fica de mais um episódio triste que devastou vidas e meio ambiente, é extremo vazio e — silêncio ensurdecedor —, depois da notícia, a sensação era de descrença de que algo tão cruel tivesse acontecido, depois de outro episódio, ocorrido em 2015, em Mariana-MG. O que restou desse lastimável acontecimento só se resume a dor, silêncio e não pertencimento.

As histórias dos sobreviventes são comoventes, teve mãe que correu com o filho nas costas para conseguir sobreviver, teve adolescente que venceu a nado a correnteza de lama, teve gente que resgatou com vida familiares soterrados na lama e sentiu uma estranha esperança na vida… Perderam-se pessoas, mas mais do que isso, perderam-se memórias, perderam-se identidades, parte da terra sucumbiu, e com ela, seus frutos. Palavra nenhuma chega tão perto de descrever as consequências desse crime.

Depois do ocorrido, o que será que devolveria esperança?

Como foi que surgiu a primeira Biblioteca e Brinquedoteca no Parque da Cachoeira?

Waldenia M. F. Dias Viana, é moradora da cidade de Betim – MG, é psicóloga e pedagoga, já trabalhou na ONG – Instituto Griasc, em Betim, desenvolvendo projetos voltados à comunidade, dentre eles, ajudou na criação da Biblioteca Comunitária e hoje se orgulha:

“Lá sei que deixei crianças leitoras, que já escreviam poesias. Tenho certeza de que se tornarão adultos leitores.”

Waldenia atende como psicóloga em consultório, mas acredita que tem uma profissão não apenas para exercê-la isoladamente, deseja ajudar com aquilo que faz. Ela foi como voluntária à cidade Brumadinho, em um momento em que já se tinha um número elevado de voluntários. A ideia era acolher as vítimas como psicóloga.

Em determinado momento deu uma entrevista à apresentadora Mariana Ferrão sobre trauma após tragédia e contou brevemente sobre o seu desejo de montar um projeto de biblioteca e brinquedoteca na região.

De São Paulo, Margareth Brandini Park, escritora, pedagoga, pesquisadora e militante a favor do meio ambiente, em contato com Mariana Ferrão, para quem em outro momento também já havia dado entrevista, comentou que gostaria de participar de algum projeto em Brumadinho, mas gostaria de estar em contato com alguém que estivesse ativamente envolvido em alguma causa, foi aí que ouviu falar de Waldenia, que tinha o intuito de montar uma biblioteca comunitária na região.

Em contato com Waldenia, Margareth quis saber do que ela precisava para começar o projeto, inicialmente encaminhou uma caixa com livros seus, todos autografados, da temática infanto-juvenil e sugeriu que Waldenia deixasse esses livros nas praças, para que quem quisesse pudesse ter acesso. Mas não foi isso que Waldenia fez, tentou levar esses livros para uma biblioteca pública, porém, viu que não era esse o caminho, queria poder intermediar o processo do envolvimento desses livros com as crianças, adolescentes e adultos.

A primeira ideia dela para fazer algo que envolvesse produção cultural na região do Parque da Cachoeira foi começar na arte da contação de histórias, mas antes precisava se estabelecer fisicamente no local.

Waldenia procurou pela Associação de Moradores do Parque da Cachoeira e do Lago (Acopapa), que na ocasião, tinha muitas demandas para com a população, principalmente no que se referia à alimentação, oferecimento de serviços de assistência social e saúde, entre outras. A Associação aceitou a ideia do projeto de Waldenia porque entendia que era algo que beneficiaria realmente a comunidade.

Foi cedido pelo presidente da Associação um cômodo para a criação da biblioteca. A reforma do espaço foi proporcionada pela Waldenia junto ao seu marido, e todo o material para colocar o projeto em funcionamento veio de doações: livros, lápis de cor, brinquedos, fantoches, tapetes, entre tantos outros. A articulação para a doação desses materiais era realizada por Margareth, de Campinas.

 “Cheguei num momento muito difícil e doloroso. No Parque da Cachoeira não tem creche, não tem escola, só tem um campo de futebol, que a Vale utilizou para a montagem dos contêineres para atendimentos. Nada funcionava lá. Estava um caos. Foi aí que convidei duas amigas para me ajudarem na contação de histórias (Márcia e ‘Sãozinha’, do Instituto Griasc). E começamos o trabalho com as crianças, adolescentes, e muitas vezes, enquanto elas contavam histórias, eu ia falando com os pais. Naquela situação, eu gosto de dizer que era como ‘trocar pneu com o carro andando’. Margareth e eu fazíamos várias coisas ao mesmo tempo”, conta Waldenia.

A conexão mesmo à distância entre Waldenia e Margareth foi instantânea:

 “Quando conheci a Waldenia perguntei do que ela precisava e ela faria os movimentos de lá e eu moveria a minha rede de contatos daqui de São Paulo. Enviei uma caixa com livros meus autografados. E depois fui fazendo contatos, conseguindo materiais, dos mais diversos, todo tipo de material importante para o espaço”, relata Margareth.

Atualmente, a pesquisadora considera a ‘cereja do bolo’ do Espaço Brincante, a ideia da ‘bibliocicleta’, que se trata de uma biblioteca itinerante. Margareth explica que a ideia da bibliocicleta é que os adolescentes possam ajudar no projeto por meio do transporte dos livros para as famílias em Brumadinho.

Em parceria com o Colégio Nossa Senhora do Morumbi, São Paulo, alunos e pais foram mobilizados, e já foram doadas três bicicletas e muitos livros para o projeto Espaço Brincante.

Margareth Brandini Park se dedica à literatura infanto-juvenil há 15 anos, já trabalhou por 20 anos na montagem de acervos de memória nos projetos que desenvolvia nas periferias, nas escolas e nas prefeituras. A pesquisadora a sua vida toda ‘lidou com memórias’ e a sua história como ‘ser leitor’ foi incentivada por sua mãe. Frequentava a biblioteca pública ainda muito pequena, quando sequer era permitido que tivesse uma carteirinha, a mãe precisou brigar para que a filha muito pequena tivesse acesso aos livros:

“Quando eu era muito pequena, lia de tudo, não apenas livros infantis. Em minha vida toda, me vali do autodidatismo e minha formação se baseou, principalmente, na leitura. Acredito no empoderamento pela leitura. Quando a Waldenia me disse sobre a ideia desse projeto de unir biblioteca e brinquedoteca, pensei no poder dos livros, no que poderiam fazer por aquelas pessoas. Livros são capazes de transportar para além da dor, e eu sabia que poderiam ajudar naquele momento. Acredito no poder da literatura, unida ao acolhimento. Waldenia e eu tínhamos essa crença em comum.”

A escritora explica que a ideia do Espaço Brincante, na verdade, é que seja um espaço cultural, para que as crianças, adolescentes e, futuramente, os adultos, possam ter contato com inúmeras experiências culturais diferentes. Ela conta que o foco também tem sido a personalização do projeto: “Todos os artistas convidados e que aceitaram participar, baseiam suas produções artísticas especialmente no Espaço Brincante, para que tenham a ‘cara do projeto’”.

Espaço Brincante está crescendo em Brumadinho

Waldenia conta que tem surgido cada vez mais pessoas querendo ser voluntárias no projeto. Ela tem organizado junto aos grupos participantes, dias específicos de trabalho aos finais de semana. Em um sábado participa o grupo de teatro, em outro, um grupo para um trabalho com música, contadores de histórias, etc.

“O caminhar nesse trabalho é um processo amoroso e sofrido. Quando cheguei em Brumadinho, era uma ‘estranha no ninho’, precisava de apoio da comunidade, precisava explicar o que era o projeto aos pais dessas crianças e adolescentes. O projeto se chama Espaço Brincante, mas se trata de uma brincadeira séria”, relata.

O espaço está tomando corpo para o acolhimento da comunidade. A ideia é levar movimento cultural para as pessoas e possibilidades antes desconhecidas, que são possíveis por meio do poder da palavra e da cultura.

O que é ser educador e por que se dedicar a projetos sociais?

“O meu sonho é sair daqui deixando uma biblioteca consolidada, com pessoas cuidando e seguindo com essas ações, enquanto eu começo outros projetos como esse em outras regiões do Brasil, aonde precisarem”, diz Waldenia.

“Eu acredito no poder da palavra, no poder dos livros, que podem mudar a vida, que podem apresentar perspectivas. Quando eu era criança, por exemplo, não tinha condições financeiras para o lazer, mas era uma leitora, e isso te permite conhecer muitos lugares, universos, culturas, personagens. Você cria uma relação com as personagens das histórias, é como se te mostrassem algo sobre você, em muitos momentos”, diz Margareth.

Waldenia acredita que o papel da educação em um país em momento social e político tão conturbado é primordial, mas que a qualidade da educação é de extrema importância: “Meu desejo é que se utilizassem mais as bibliotecas, que os livros fossem essenciais no processo da busca por conhecimento. Que houvesse mais preocupação com a educação infantil”. Waldenia acredita que o seu papel é ‘ver o país de perto’ estar onde pode ser útil, fazer a sua parte.

“Educação é você e o seu papel de professor, é você e ele (o aluno), e aí vem o papel do professor que é professar. Acredito na potência do ato educativo. Acredito nisso porque os livros me empoderaram”, relata Margareth.

A professora acredita que pessoas, com conhecimentos e boa vontade, podem se unir, e desta forma, mudanças positivas acontecem, as pessoas se tornam assim ‘agentes de transformação’ no mundo: “Pessoas vão se conectando, unindo conhecimentos e buscando maneiras de transformar o mundo, isso é resultado de uma educação libertadora. Essa é uma crença freireana (baseada no Paulo Freire*). É isso”.

No Espaço Brincante, existe uma iniciativa chamada Conversando Com o Escritor, em que as crianças têm a possibilidade de conversar com escritores de livros da temática infanto-juvenil, como aconteceu com a fonoaudióloga, educadora e escritora, Aglael Gama Rossi, que junto às crianças, por meio de chamada de vídeo, falou sobre o seu livro infantil O Aroma de Amora.

Mas hoje, a ideia é tornar essa possibilidade de interação ainda mais ampla, possibilitando esses encontros com ilustradores de livros infanto-juvenis, músicos, atores, entre outros artistas, assim, segundo Margareth, a possibilidade de conhecer outros universos é dada, e essas crianças e adolescentes só têm a ganhar com essa interação.

“Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”, Mario Quintana

Se quiser ajudar com doações de livros, materiais para o Espaço Brincante, pode mandar mensagem para a Waldenia e combinar o envio dos materiais, pelo telefone: (31) 9987-7056

Para ajudar nas doações para a ‘bibliocicleta’, ideia da Biblioteca Itinerante, pode acessar a fanpage do Colégio Nossa Senhora do Morumbi e ter mais detalhes (aqui)

Essa matéria aconteceu por intermédio da Aglael Gama Rossi, alguém que o Universo me apresentou e que tem me inspirado como ser humano.
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