JACQUELINE

Nos conhecemos há exatamente dezessete anos. Ela é capricorniana, do dia 05 de janeiro e eu taurina, do dia 30 de abril, temos o elemento terra em comum, assim como temos a mesma idade e a mesma maluquice e humor e tenho certeza de que foi isso que fez com que nos tornássemos amigas. Ela me achava estranha e era recíproco, porém, ela era uma estranha mais sociável do que eu.

Primeiro contato

Tinha mudado de casa fazia pouco tempo e começaria na escola nova, ia entrar após as férias, no segundo semestre. No dia em que fui à escola, não tinha começado oficialmente, mas na minha sala havia sido recebida por duas meninas, dentre elas a Jacqueline. Ela era mais calada, observava mais do que falava e ria (também com os olhos), era difícil saber exatamente se ria das bobagens que eu falava ou de mim totalmente, afinal, tinha muita dificuldade de socializar, mas me esforçava, com frases mal formuladas e brincadeiras idiotas.

Amizade acontecendo aos poucos

Eu não tinha muita sorte com os meninos na escola, geralmente ficava mais calada quando surgiam para conversar com as meninas que estavam próximas, dentre elas, a Jac. Ela tinha cabelos compridos cacheados até a cintura, os olhos são escuros e os cílios grandes. Gostava de roupas esporte e me lembro muito de uma calça cinza clara e de uma jardineira creme que ela gostava muito de usar.

Apesar de mais calada do que as outras meninas do grupo, Jac era muito receptiva e sorridente. Os meninos gostavam do jeito dela, era leve, engraçada, ao mesmo tempo transparecia doçura e amizade. Aos poucos conversando, descobri que era minha vizinha, morava há duas ruas atrás da minha casa.

Foi se tornando cada vez mais comum a minha visita a casa dela e a dela à minha. Éramos duas palhaças, a gente falava duas frases e ria por cinco minutos. Ela gostava muito de Red Hot Chili Peppers, tinha até uma camiseta da banda, assim como também me lembro dela até hoje quando ouço Goo Goo Dolls (Iris). Minha mãe e meu pai gostavam muito dela também e sentia sempre o carinho de seus pais quando ia visitá-la. Tinha dois irmãos: Jéssica e Rodrigo (muito humorado e parecido com a Jac por ser mais observador).

Não me esqueço do aniversário de dezesseis anos da Jac, em que seus pais fizeram uma pequena comemoração, com bolo de coco, refrigerante e panetone, estava um dia muito agradável, foi muito rápido, mas muito legal, Jac, assim como eu, não era de muitos amigos, mas os poucos valiam muito.

Tinha um cachorro filhote na época, chamado Simba, me lembro de um dia em que juntas fomos levá-lo para passear e ele empacou no caminho, porque estava cansado de caminhar e revezamos trazendo ele no colo, o que claro, nos cansou muito mais do que a ele.

Me lembro de um dia em que fomos a um show de uma banda de rock que até hoje não me recordo o nome (acredito que nem ela se lembre), e que não era bem o que a gente estava esperando, voltamos antes que acabasse e em casa tinha sorvete de coco e por lá ficamos, conversando, rindo e trocando confissões.

Não posso deixar de mencionar o dia em que fomos ao cinema e lá um rapaz se interessou pela Jac, ele estava acompanhado de um amigo e ela queria que fizéssemos um “esquema” para que eu ficasse com o amigo dele, mas depois, ela também tinha perdido o interesse. Os rapazes ficaram de nos esperar na porta do cinema. Nós entramos na sala atrasadas, vimos o filme (Todo Poderoso, com o Jim Carrey), da primeira fileira a ponto de um quase torcicolo, e no final do filme, saímos pela emergência do cinema para não encontrar os garotos, rindo como duas hienas.

Nossa história envolve retalhos de histórias malucas e engraçadas, algumas que só a gente e pessoas com a mente bem aberta são capazes de entender, como quando ganhei um duende e passei a ser assombrada por risos e uma presença e não consegui dormir por duas noites. Liguei para a Jac, contei entre risos e preocupação a história, combinei de levar o duende para ela no dia seguinte na escola. A Jac me ouviu atenta na sala de aula (dessa vez relatei mais detalhes), mesmo que rindo muito, tentou me ajudar, levando o duende para a casa dela para tentar resolver o caso junto à mãe, porém, foi assombrada como eu por algo que habitava na imagem do duende e aí, a orientação, segundo revistas esotéricas, era a de que o duende deveria ser isolado em jornal e depois jogado em um rio de água corrente (oi?!) ou, entregue à pessoa que havia me dado, no caso meu tio. Achei mais fácil devolver, fiz e o caso se encerrou.

Um tempo sem contato

Pouco antes do término do ensino médio, a Jac tinha começado a namorar um cara poucos anos mais velho, se apaixonou — era o que ela havia me confessado — e em pouco tempo as coisas mudaram. Ela já não ia em casa mais com a mesma frequência, não existia essa tecnologia toda para troca de mensagens. Ela ia se mudar para outro bairro e eu naturalmente pensei que era assim mesmo, afinal, já tinha tido outros amigos, que achei que fossem ser amigos a vida toda e que perdi de vista, onde estavam, o que faziam, etc. E claro, devo ser para algumas pessoas a amiga que desapareceu. Encontros e desencontros.

Ficamos aproximadamente uns nove anos sem contato, muitas coisas aconteceram na minha vida nesse tempo, na dela também, mas não tínhamos mais uma a outra para se confessar. É claro que a vida segue, a gente conhece novas pessoas, faz amigos e isso não apaga da alma aquilo que foi tão verdadeiro e bom.

Amigos que nunca morrem

Alguns amigos a gente desencontra na vida, mas de uma maneira que não se pode explicar, ficam muito vivos na nossa memória e alma, de um jeito único. A Jac é esse tipo de amiga, que me marcou quando adolescente e o amor que tenho a ela estará para sempre cravado na alma e lembranças.

Esse texto é uma atividade que propus ao grupo de oficina literária na Casa da Palavra em Santo André, como toda atividade, me coloco como participante. Cheguei a dizer que escrever memórias (tema da atividade), pode despertar emoções e que pode não ser um processo muito simples e fácil, realmente não é. Confesso que não escrevi com preocupação quanto a quais palavras usar, enfim, queria realmente expor essas memórias.

Retomei contato com a Jacqueline há nove anos, ela me encontrou nas redes sociais, mas já estava quase de mudança para os Estados Unidos. Tinha recentemente terminado um casamento. Hoje vive no Texas, na cidade Plano com o seu lindo filho, Nicolas.

Sempre que ouvir Californication me lembrarei da Jac e sempre que ouvir Iris do Goo Goo Dolls vou me lembrar de como era quando a gente falava sobre os nossos corações partidos, mas sempre rindo de alguma piadinha rápida (geralmente criada por mim) no final.

De alguns amigos a gente acaba se despedindo ao longo da vida, não porque a amizade não era verdadeira ou algo do tipo, era um encontro, que durou por determinado tempo, mas outros, mesmo que a gente não mantenha contato físico por tanto tempo, como no caso da Jac e do meu, tudo continua igual. Ela mantém o mesmo humor, apesar de todos os pesares e eu mantenho as mesmas gracinhas de sempre, em momentos não muito engraçados.

Estou emocionada escrevendo, porque a Jacqueline é uma amiga que a vida me deu, que com certeza é parte até do meu exercício de retratar a amizade na literatura, todos os amigos na ficção que surgiram e surgirão da minha mente, têm e terão um pedacinho da Jacqueline. A gente tem uma amizade leve, que resiste ao tempo, que resiste a distâncias.

Um dia, Jac, a gente vai se encontrar, vamos tomar um típico café da manhã americano, vamos rir falando as nossas bobagens e, lá no fundo, mesmo adultas (ou não), a gente, tenho certeza, ainda vai encontrar o brilho nos olhos uma da outra, de quando a vida era uma mistura de corações partidos e bandas de rock de caras bonitos e largados e de risos frenéticos que estraçalhavam qualquer vestígio de tristeza. A amizade é um presente muito valioso e é inexplicável o quanto torna os nossos dias mais floridos na caminhada.

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