Anticorpos para combater a pandemia de COVID-19 – Empatia real

De repente os roteiros de filmes de ficção sobre vírus mortais que exterminam a humanidade começam a se encaixar à realidade. De repente O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabo, parece um promissor e assustador romance contemporâneo. Sunday Bloody Sunday do U2 se torna perfeitamente aplicável a todos os dias da semana. Escritores dramáticos se sentem mais dispostos a escrever como refúgio de sua realidade, dessa vez muito real.

Precisamos nos isolar, e pela primeira vez experimentar a sensação de estar dentro de si é absurdamente incômoda. Para aqueles que já lidam com essa tormenta é só mais uma fase.

Caos. Supermercados lotados, pessoas ensandecidas, com medo, repletas de incertezas, egoísmo. Álcool em gel e a alma e mente totalmente impuras.

Será que vou ser contaminada e sobreviver? E se amigos, familiares forem contaminados, o que será? Será que se eu tocar em algum desses corpos medrosos serei infectada? Será que estou contaminada e não sei? E se o vírus do medo, da ausência de paz, me infectar?

A economia vai entrar em colapso no mundo? Rir de memes em um momento como esse é falta de respeito com a situação da humanidade?

E os planos que tive de interromper? E os medos sobre o presente que tive de adiar e trocar por um temor idiota do futuro?

Será que a arte também quis adormecer um pouco para quem sabe despertar na eternidade?

Como lidar com os monstros que estavam adormecidos e resolveram assombrar com força as almas? Como aumentar a imunidade?

O que fazer para se distrair de si mesmo? Se render aos instintos mais animalescos na tentativa de se anestesiar da grande loucura que é ter a consciência de si?

O isolamento não é só físico, é interno, é para dentro de uma consciência única, que estava dormente em diversos pontos. De repente acordamos para uma realidade igual no mundo, para olhar para as pessoas, dessa vez, como pessoas como nós. Aquela “balela” de empatia que a gente via a torto e a direito como termo da moda, agora começa a se manifestar no oculto, na consciência isolada de cada um. De repente passo a me importar com quem nem conheço, com quem vejo nas raras vezes em que saio, com quem não pode se abster das ruas por uma realidade e contexto diferentes dos meus.

De repente… a palavra que mais surge e ressurge na mente. Jamais escreveria algo do tipo se não tivesse em meio a uma realidade tão maluca. Que mundo louco!

O vidro com conteúdo fluorescente se estilhaçou no chão branco.

De repente o latido de um cão de rua se torna um presságio.

O silêncio se faz necessário e é quase insuportável para muitos ouvidos e para a realidade de muitas almas.

Nada vai se resolver de uma hora para outra. A paciência é um exercício em grupo. Quando será encontrada a cura? Ninguém sabe, é preciso paciência, viver um dia de cada vez. Todas as pessoas precisam exortar umas às outras quanto a ter paciência. Os mais agitados, que gostam de estar sob o controle da situação e que querem tudo para ontem, precisam aprender a viver o hoje.

Aqueles que acham que para viver o presente precisam estar fora, por aí no mundo físico, de repente precisam aprender a viver o presente em si, repensar, enxergar o que antes fugia da vista porque era corriqueiro.

Dentre as milhões de explicações e significados para o amor, está a vivência simples de enxergar o outro como a si, porque o “amar” seria sublime demais. De repente entendo que o “perder a si mesmo”, conforme orientação bíblica, se refere a se desvestir de temor.

Quando será encontrada a cura? Por enquanto aposto nos anticorpos gerados pela empatia, por meio do pensamento coletivo, do ato de repensar o egoísmo nosso de cada dia e pelo enfrentamento de pequenas mediocridades que estavam bem escondidas em nosso exercício existencial. Um vírus que apresenta consequências sobre a saúde, relacionamentos, economia, sobre as certezas e que nos faz retomar a consciência de que sempre estivemos doentes e conformados.

 

 

 

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