O Amor nos Tempos do Cólera – sobre o hoje, sobre a morte, espera e escolhas

O Amor nos Tempos de Cólera de Gabriel García Márques está entre os livros que mais marcaram minha vida. Quando a pandemia se espalhou pelo mundo, era só nesse livro que eu pensava. Vinha à mente o médico Juvenal Urbino, Fermina Daza e Florentizo Ariza.

A narrativa dessa obra se passa no final do século XIX, em terras caribenhas. É uma história que aborda o amor, o envelhecimento, a morte e, claro, nuances históricas que retratam guerras, doenças e, principalmente, a cólera.

Para Gabo, esse romance é um retrato da vida de seus pais, que enfrentaram a resistência de suas famílias para que ficassem juntos e também a distância.

Hoje te convido a conhecer esse livro genial (mais pertencente ao Realismo do que ao Realismo Fantástico), e talvez, nesse momento em que vivemos, te seja tão reflexivo quanto é à minha alma.

Amor, separação e escolhas

No livro é narrada a história da forte e determinada Fermina Daza, que pertence a uma família tradicional e do telegrafista, violinista e poeta, Florentino Ariza. Fermina conhece Florentino por conta do seu ofício de entrega de telegramas e cartas, desse contato surge uma paixão que fica em segredo por um tempo, até que o pai de Fermina descobre e envia a filha para uma viagem de um ano a fim de esquecer Florentino. A moça retorna após um ano. Florentino revela os seus sentimentos, mas Fermina o rejeita.

Em meio a esse contexto, Fermina adoece e assim conhece o renomado médico Juvenal Urbino, um apaixonado pelo ofício e envolvido também em tentar melhorar as condições de saúde e de higiene sanitária das pessoas menos favorecidas.

A princípio, Fermina resiste às investidas de Urbino, mas acaba cedendo e se casando com ele. Florentino ao saber dessa notícia se vê diante de uma escolha: esperar ou esquecer. A espera vence.

Tempos de cólera

Outro ponto importante nesse livro e que nos leva a uma reflexão sobre o que estamos vivendo atualmente é, como já mencionado, a cólera.

Confira abaixo um trecho do livro que ilustra nossa realidade devido à pandemia:

Queriam saber que tipo de peste grassava a bordo, quantos passageiros vinham, quantos estavam doentes, que possibilidades havia de novos contágios. O comandante respondeu que só traziam três passageiros, e todos tinham o cólera, mas se mantinham em reclusão estrita. Nem os que deviam embarcar na Dourada, nem os vinte e sete homens da tripulação, tinham tido qualquer contato com eles. Mas o chefe da patrulha não ficou satisfeito, e mandou que saíssem da baía e esperassem no pântano das Mercês até as duas da tarde, enquanto se preparavam os trâmites para que o navio ficasse de quarentena. O comandante soltou um palavrão de carroceiro e com um gesto da mão mandou o prático dar a volta completa e voltar aos pântanos.

As muitas “cóleras”

Agora compartilho algumas das minhas percepções sobre este livro que tanto me é importante. Ainda acho que a espera de Florentino Ariza se relaciona mais com obstinação do que com o amor de fato, mas não posso julgar o personagem, tampouco o genial autor, de repente essa era a melhor escolha mesmo, esperar pelo improvável, pelo impossível.

Não encaro apenas a doença contagiosa como a/o cólera, mas essa obstinação que se confundia com amor e as tantas guerras movidas pela cólera (raiva).

A cólera também poderia ser representada pelos pensamentos, pelas privações de cada personagem de viver quem era em integridade. A cólera estava nos pensamentos de Fermina, de Florentino, de Juvenal, de todos os personagens e em todos os leitores.

Os maus pensamentos, os errôneos julgamentos, os amores rasos, eram mais contagiantes do que a cólera, mais letais à alma do que a iminente morte.

“Achava mais fácil suportar as dores alheias que as próprias.”

“— E até quando acredita o senhor que podemos continuar neste ir e vir do caralho? — perguntou.

Florentino Ariza, tinha a resposta preparada havia ciquenta e três anos, sete meses e onze dias com as respectivas noites.

— Toda a vida — disse.”

É um livro sobre o exercício da paciência, sobre “escolhas ou obstinações” que determinam o curso da vida. Também é sobre espera, que aos ansiosos pode torturar e aos que gozam do tempo com saúde, pode cansar, mas de qualquer maneira, o objetivo é alcançado, de acordo com o que foi semeado.

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