Isoladas

Crônica escrita em junho/2020

Há alguns meses o mundo mudou e tem mudado. Há alguns meses tenho convivido muito mais com uma presença nova, divertida, às vezes emocionalmente desequilibrada e um tanto complicada.

Ela precisou parar, assim como eu diante dessa pandemia. Muitas coisas já vinham se transformando em seu interior e com esse isolamento, essa mudança tem se intensificado.

Finalmente posso observá-la, assim, tão de perto. É engraçado quando ela está à beira dos nervos, é divertido quando a observo respirando fundo, porém discretamente. É a primeira vez, talvez, que ela esteja percebendo a própria respiração.

A vida dela estava toda bagunçada, algumas coisas estavam caminhando rumo ao abismo, sem exagero. Ela não me disse nada abertamente, mas eu a sinto, entende? Sei muito mais sobre ela, o que pensa, como sorri, como enlouquece às vezes em silêncio.

O mundo não é o que era há alguns meses e quem sabe o que será daqui para frente? Uma pandemia mundial, tratada isoladamente por cada nação e nem ela e eu estamos no melhor lugar para vivenciar esse caos. Pensando bem, esse é o cenário desarrumado e caótico perfeito. Quem deseja repensar a existência, rever ideias, mudar rotas, precisa fazer as mudanças quando as outras possibilidades estão fora de cogitação.

Em muitos dias ela chorou, algumas só eu vi.

É engraçado isso, convivo com ela há tanto tempo e só agora estou tendo esse contato maior com ela. Não imaginava que ela fosse tão legal. Algumas vezes ela me confessou suas inseguranças quanto a ser quem é.

Estamos isoladas juntas, é bom saber que não estou sozinha. Que tenho com quem conversar, com quem confabular, com quem sonhar, sonhos possíveis.

Estamos juntas, entramos em crise em muitos momentos, mas é bom ter alguém com quem compartilhar as dores, os risos, os anseios e as experiências das mudanças concretas.

Um dia ela viu um filme em que as pessoas tentavam apagar as suas memórias ruins e me disse que jamais faria isso, porque ter memórias ruins ajudam a valorizar as memórias boas, aquelas que preservam a mente e os bons desejos.

Um dia… a vi assim, olhando para si, mas sem prestar muita atenção ao que via e achei interessante alguém olhar o seu externo, sem visualizar a matéria, mas apenas o próprio cansaço e o que restam de qualidades.

O mundo nos fez parar um pouco. Ela e eu. Estamos ouvindo a nossa própria respiração. Passando tempo integral juntas e, no fim das contas, de todo o caos, elas têm uma a outra. Nós paramos, únicas, somos, uma. Ela sou eu e estar assim comigo é, no mínimo, abrasador e doce.

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