Feliz Dia às Mães de pessoas e de si mesmas

Estava aqui pensando sobre maternidade. Não disse definitivamente que não quero ser mãe, hoje não me sinto pronta para gerar uma pessoa e ao mesmo tempo há um relógio biológico rodando os ponteiros. Mas já pensei e ainda penso muito no que é a maternidade e no que seria esse ato de “maternar”, além do gerar uma criança.

O ser mãe é uma cobrança desde criança, aliás, desde crianças, as meninas já são mães de bonecas, que choram, se sujam, querem comer, querem abraço… Há toda essa cobrança social, mais do que empurrada goela abaixo.

Ao longo da vida, refletindo muito e em muitos momentos sendo levada ao ambiente da maternidade (principalmente no campo da pesquisa e até profissional), entendo a maternidade como muito além do útero e muito além do gerar uma pessoa.

Você, assim como eu, já deve ter conhecido alguém que precisou “arrancar” o útero (foi essa a expressão que ouvi), assim como já vi filmes em que as personagens viviam o dilema de não poder, por alguma razão, ser mãe e todo um estigma social perambulando como uma sombra sobre as suas vidas.

Esse estigma social teima em perambular sobre a vida de toda mulher. Ser mãe de uma pessoa, por exemplo, não garante que essa mulher estará livre dessa sombra, pelo contrário, as cobranças serão outras, sobre como cuida, sobre como faz ou não, sobre se amamentou ou não, se foi cesariana, normal ou natural, se é mãe solo ou não…

A verdade é que ser mãe de uma pessoa ou apenas de si mesma não isenta nenhuma mulher de ter de lidar com as eternas cobranças sociais. A diferença é que hoje essas cobranças se tornam menos dolorosas, porque temos conseguido, ainda com muitas falhas, nos unir mais, dialogar mais. Claro, estou aqui escrevendo como mulher branca, cis, de um lugar de privilégios e, sim, é preciso sempre pontuar isso quando se fala em ser feminino.

Quando li Simone de Beauvoir pela primeira vez, tive uma sensação muito boa de que o nascimento era interno, a maternidade, esse privilégio feminino, estava além do útero, estava no parir a si mesma no mundo, na sociedade.

Nem todas as mulheres escolheram ser mães, alguns filhos vieram ao mundo porque era mesmo a ‘vontade de Deus’. Outras escolheram, quiseram muito, fizeram tratamentos, promessas, trabalhos com orixás. Muitas morreram, porque não quiseram e não tinham apoio no país para escolher não gerar.

Ser mãe, a meu ver, é um cuidado muito pertinente e próprio de nós mulheres. Até aquelas que se dizem não maternais, como eu, em algum momento da vida, senão em muitos, estão cuidando de alguma maneira de si mesmas e tentando ser para si mesmas, uma boa cuidadora.

Hoje escrevo sobre maternidade sob uma perspectiva de dar as mãos. Mulheres que são mães de pessoas, mulheres que escolheram não ser mães ou, que como eu, ainda não escolheram, estão deixando o relógio rodar… Mas maternar é algo muito mais complexo. O ser feminino pode cuidar, pode ser mãe em diferentes contextos, em diferentes etapas da vida e não propriamente de pessoas.

Meus projetos são como filhos queridos, nascem com muita dor e amor. Meus livros são como filhos, nasceram também de muita dor e amor.

O que eu quero com esse texto é levantar questionamentos. Posso ser mãe sem nunca ter filhos. Maternidade é um cuidado que vem como algo sagrado no ser feminino.

O filho nasce e já se sabe o que fazer? É o que dizem, mas já vi muitas mulheres dizerem que não é assim, já vi muitas mulheres desabafando sobre se sentirem incompreendidas ou invisíveis como se o único papel na vida fosse esse.

De alguma maneira a sociedade predominantemente machista ainda acredita que esse é o papel da mulher, mas o papel é não ter papel. É seguir o próprio caminho, é fazer escolhas que possam custar um preço alto ou um cálice de delícias que só pode ser saboreado por si mesma.

Seja como mãe de uma pessoa ou não, que possamos resgatar esse maternar, que é esse cuidado, que primeiro se estende a si e depois ao outro, com ou sem útero.

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