Os problemáticos são os mais evoluídos

Sua arma não consegue me ferir.

Não consegue ver que não sou humano?

Kevin é um homem, eu sou muito mais.

A vigésima quarta personalidade olha para Casey:

Você é diferente de todo mundo.

Seu coração é puro.

Alegre-se!

Os problemáticos são os mais evoluídos.

Alegre-se!

Essa é a cena mais intrigante a meu ver do filme Fragmentado. E a todo o momento o que mais me intriga não é o Kevin (James McAvoy) e suas vinte e quatro personalidades, mas Casey (Anya Taylor‑Joy) e a sua jornada interior em meio àquele cenário.

As lembranças que vão surgindo à mente dela e a dor que ela carrega não se comparam ao que ela está vivenciando ali naquele cativeiro.

Tudo leva a crer que Casey foi abusada durante toda a sua infância, adolescência e que isso a marcaria por toda a sua vida.

Sua perspicácia para compreender quem era aquele cara estranho que mudava a cada instante era parte de sua capacidade de perceber os mais minuciosos detalhes.

Mas no final, talvez a fala mais emblemática seja mesmo “Os problemáticos são os mais evoluídos” e fiquei me perguntando por que ele diria isso, por qual razão.

Quando “Kevin” olha para as cicatrizes na pele de Casey, provavelmente provocadas por ela mesma, automaticamente volta atrás e decide não ir adiante no propósito que era de se alimentar de todas as garotas.

Por que os problemáticos são os mais evoluídos? Na verdade o termo utilizado em inglês é broken, que pode ser interpretado também literalmente como quebrado.

Primeiro porque compreendem que há algo de diferente do que se compreende por normalidade e depois, a partir disso, parte-se do pressuposto que a pessoa que se sente problemática/quebrada, passa a enxergar a si e o mundo sob uma nova perspectiva.

Alguma coisa realmente não é normal no meu eu, de acordo com os parâmetros, mas aprendo a lidar com isso, a me ver e a ver as pessoas de uma outra maneira.

Problemáticos evoluídos, não querendo dizer que todas as pessoas com problemas são evoluídas, mas que é muito mais provável que haja evolução quando a pessoa sente dor, quando entende o que é se sentir diferente em algum ponto da vida, quando aprende a transcender a partir disso, na maioria das vezes, silenciosamente.

Apesar das vinte e quatro personalidades, a da Casey é a mais importante, porque sem ela, não conseguiríamos ter acesso às tantas facetas do “protagonista” da história.

Os problemáticos são os mais evoluídos até mesmo quando não assumem que são problemáticos, porque aprendem a ver a vida sob um novo viés.

O Alegre-se parece um pedido um tanto descontrolado, mas o que ele diz é alegre-se por ser diferente, por ter uma história que te fortaleceu. Talvez você não possa escalar paredes, ou abrir jaulas de aço, mas a sua força é capaz de destruir muralhas, por mais fortes e altas que sejam e por mais indestrutíveis que pareçam por estarem no campo da “irrealidade”.

No fim das contas, Casey era mais forte do que ele, e só tinha a si mesma para se amparar, a si mesma para se contar a própria história, a si mesma para encarar a vida, compreender as pessoas, mesmo que muito mais observando-as e sendo julgada por elas, por ser mais silenciosa.

No mundo comum e real como o vemos não há muito o que dizer, é só no mundo interior que a gente pode gritar e quem sabe algum sussurro se ouça no planeta.

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