Maid – Inúmeras esferas da violência

*Contém spoiler

Maid é uma minissérie original da Netflix que aborda as facetas da violência psicológica. A protagonista da história, Alex está em busca de uma nova vida ao lado da filha de três anos, Maddy e o espectador é convidado a entrar junto à Alex em inúmeros contextos complexos quando se trata de violência psicológica à mulher.

Como espectadora, em vários momentos me senti incomodada por reconhecer muitas dessas minuciosas faces da violência psicológica em minha vida e na vida de muitas mulheres próximas a mim.

Alex tem 25 anos de idade, conheceu Sean em um bar de sua cidade, se apaixonou e foram viver juntos. Logo ela engravidou de Maddy, precisou se abdicar de uma bolsa para estudar literatura em Montana e optou pela vida ao lado de Sean, que é alcoólatra e frequentemente cometia abusos contra ela, dentro de sua casa.

Mas as agressões não eram físicas

Quando Alex toma a decisão de abandonar a vida com Sean e pela primeira vez se depara com um abrigo para mulheres que sofreram violência, ocorre o momento de negação sobre a própria violência sofrida, porque ela acredita que para estar em um lugar dedicado à mulheres que sofreram violência, deveria ter sofrido algum tipo de abuso físico. Assim como em determinado momento quando questionada se registrou a ocorrência, ela nega, afinal, a violência psicológica é violência? Sabemos que sim, mas em nossa sociedade isso ainda é invisibilizado.

Neste lugar, Alex começa a compreender sobre o que vivenciava ao lado de Sean. Ela nunca teve uma conta bancária, um cartão de crédito e, dependia desse companheiro para absolutamente tudo, tendo a todo momento que lidar com as agressões verbais neste lugar de dependência.

Vida como Maid/Empregada

Assim que Alex deixa a casa de Sean com a filha Maddy, se depara com um universo que antes desconhecia e precisa participar de programas do governo para conseguir ter condições de começar uma nova vida ao lado da filha. Mas o processo é burocrático e ela precisa começar a fazer algo para ter algum dinheiro.

Sem especialização e qualquer experiência profissional, Alex inicia sua jornada de trabalho como empregada em um sistema de muito trabalho e pouca remuneração.

A primeira casa é a de Regina, uma mulher de aproximadamente 40 anos de idade que mora em uma mansão. Alex é tratada com uma certa hostilidade no local e não recebe pelo trabalho por uma reclamação realizada.

Danielle do apartamento 23

No abrigo, Alex conhece Danielle, uma mulher jovem que desperta em Alex a indignação que ela precisa para lutar por si e pela filha já que é convocada à justiça para brigar pela guarda da criança.

Alex aprende a brigar pelo que precisa e a primeira oportunidade para isso é justamente com Regina, a mulher que negou o pagamento da faxina do dia anterior.

Outro ponto importante é a saída de Danielle do abrigo e a explicação por parte da coordenadora do local de que, muitas vezes, as mulheres passam por situações de violência mais de uma vez até se conscientizarem e realizarem um movimento de mudança efetiva.

Paula

Paula é mãe de Alex e uma personagem muito emblemática e importante. Ela desperta irritação e compaixão ao longo da série. Por meio dessa personagem, fica claro o círculo de violência sofrida na vida de Alex, ou seja, a mãe passou por isso, ela estava passando pelo mesmo e provavelmente se não quebrasse o círculo, a filha no futuro poderia passar pela mesma situação.

Paula é aquela mulher que negava as próprias violências sofridas. Que procurava, por meio da arte e das drogas, um refúgio para não ter de encarar a própria realidade.

É doloroso em muitos momentos ver a tentativa de Alex de ajudar a mãe, mas não encontrar desejo por parte dela por uma negação cega à própria dor.

Relacionamento com o pai

Um momento marcante na série é quando Alex aceita limpar a casa que foi moradia de um assassino e, lá, começa a ter algumas experiências ao tentar reconstituir a vida do criminoso e o que o teria levado a esse caminho.

Durante essa experiência de limpeza que dura mais de um dia, Alex está provisoriamente na casa do pai e em algum momento ela se recorda de um dia em que estava escondida no armário por uma violência do pai à sua mãe.

Essa descoberta a faz ver de perto a complexidade da violência, quando o próprio agressor sequer admite a agressão por considerar o ocorrido uma consequência do alcoolismo.

Aliás, vale a conexão de que Sean é alcoólatra e o pai de Alex também é.

Volta com Sean

A volta de Alex com Sean também leva a importantes reflexões. Primeiro vem a promessa de mudança de Sean, depois um problema envolvendo Paula e a sensação de solidão de Alex frente à situação e, finalmente, o momento de recaída em que Alex chega a admitir que não se trata de uma volta, mas de uma estadia com Sean até que as coisas se resolvam, já que ela não tem mais moradia.

Após essa decisão, o círculo novamente se fecha sobre Alex. A prisão que ela experimenta na casa que ela não pode chamar dela é algo angustiante.

Última chamada

Esse é um dos momentos marcantes a meu ver como espectadora que é quando Alex está procurando Maddy pela casa, atordoada, logo após uma discussão com Sean e a encontra escondida no armário, assim como ela, quando pequena, diante de uma discussão de seus pais.

O retorno de Alex ao abrigo e sua tentativa de reverter o caos de sua vida é algo que reverbera um tom de esperança na série, apesar da certeza de que nada será fácil.

Muitas faces da violência

Assistir Maid é como estar em um pesadelo daqueles que se tenta gritar e ninguém ouve. É um olhar de fora para algo que talvez já tenha acontecido em nossa vida ou até mesmo venha a acontecer.

Tudo começa com a sensação de não pertencimento a si e ao lugar em que se está. Depois disso, uma sensação de fracasso e de que talvez as coisas nunca mudem.

Maddy foi a motivação de Alex para a mudança em sua vida, mas Alex não conseguiu ser motivação o bastante para que sua mãe seguisse a mesma jornada. E aí entra uma outra questão, a de que depois de tanto tempo em um lugar de prisão, é como se não fizesse sentido para o ser violentado a possibilidade de libertação.

Outro momento marcante na minha experiência com a série foi a loja de roupas para as residentes do abrigo. A loja em que ninguém precisava de dinheiro para comprar e, mesmo assim, se sentiam inaptas a qualquer escolha. Porque a autoestima já foi mutilada, porque não se sabe mais a cor favorita ou não se veem razões para vestir algo que leva a uma melhor sensação, porque é como se a ferida fosse eterna.

Alex é uma escritora, que diante de tudo que lhe aconteceu, foi aprendendo a transpor as situações de sua vida em palavras.

Por mais que seja uma obra ficcional, de uma cultura diferente, acredito que é muito importante, porque a violência psicológica à mulher é algo real e que independe da cultura e esferas sociais.

O não gritar por achar que não será ouvida e o se acomodar em algum lugar ‘aconchegante’ na dor é uma das coisas mais tristes que podem ocorrer a uma mulher.

Algo muito importante nessa série é o acolhimento que Alex recebe de mulheres ao longo de sua jornada, inclusive, de sua mãe, apesar de suas muitas fragilidades e é com este desejo, de acolhimento, que encerro esse texto.

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