Com toda a alma

Escolha, escolha, escolha… Poderia ter escolhido o caminho mais fácil, menos doloroso, o caminho com menos questionamentos, mas escolhi viver na busca por sentido, em fazer dessa vida, que é um privilégio, algo grandioso. E claro, que seja grandioso aos meus olhos, que tenha sentido para a minha alma.

Sem certezas, que meus sentidos me salvem. Sem qualquer altivez, que as minhas limitações me despertem. Quero seguir o instinto, quero ir em busca daquilo que me busca. Quero ser alcançada pelo que está acima do meu eu, de minhas limitações. Quero ser alcançada por mistérios invisíveis.

Quando era criança, escrevi em uma velha sulfite que sabia que jamais alcançaria a perfeição, mas que poderia chegar perto dela. E sabe o que é mais incrível? É que o fato de estar inacabado como condição, a certeza da imperfeição, é aquilo que salva a alma, que torna a vida – de cada humano – a vida, com todos os ziguezagues, imprevistos, relevos…

Quero ser conduzida pela arte, porque até então, é a única que tem me dado chances, a única que tem arriscado, com todo ímpeto, e apostado na minha alma. Desejo me entregar à arte, porque é a única que tem inebriado a minha alma, de maneira que me faz sentir que é exatamente o que posso fazer, pelo meu eu e no universo.

Quero ser guiada pelos mistérios da arte. Quero ser tomada, resultado de uma entrega deliberada… é o primeiro pulo que dou sem medo. É o primeiro passo que dou rumo ao desconhecido – com toda a minha alma.

Com muito esforço tenho me libertado de muitas amarras, mas a mais resistente é a pequenez, porque a medida entre brilhar e viver na escuridão é perigosa e envolve um ato importante – o de se enxergar, de ver as limitações, mas ao mesmo tempo não se prostrar diante da própria limitação e podridão carnal. A pequenez não pode ser um escudo, mas uma constatação natural humana, e não limitante para o  ato de ser um ato no mundo.

Sou um ato, entendi isso. A arte é a ferramenta que me escolheu, de uma maneira que não sei como, mas me chama para ser ato. A minha alma, não sei como, será palco para atos e também não sei como ouso afirmar no futuro, mas eu deixarei que isso aconteça.

É na primeira pessoa o texto e isso não quer dizer que não possa ler como primeira pessoa, para si, sendo você. Pode ser que te faça tanto sentido como está fazendo para a minha alma nesse momento.

Com toda a minha alma é o que me proponho na vida como ato. Com toda a minha alma. Com todas as minhas forças, anseios, até dúvidas. Com tudo o que estiver presente na minha alma e com o que está e estará inacabado até o fim de meus dias, com toda essa alma, eu vou.